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Para quem é a FLIP?

Uma experiência de uma noite e dois dias na Festa Literária Internacional de Paraty me fez pensar sobre acesso, público, curadoria e sobre o que acontece quando a cidade também vira programação


Para quem é a Flip
Flip 2026/Foto acervo pessoal

O conceito deste texto mora nos questionamentos de quem esteve presente em uma noite e dois dias inteiros na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP 2026. Por que e para quem o festival existe, na prática, para além do que está posto no site?


Acompanho a FLIP de forma remota há um bom tempo. Quando falei para as pessoas mais próximas que me daria de aniversário a ida para o festival, imaginei que elas saberiam do que se tratava. Mas, para minha surpresa, a maioria das pessoas com quem convivo sequer sabia da existência do evento. A não ser, claro, quem é ligado à área cultural.


Naquele momento, pensei: será que é tão nichado assim? Ou será que eu vivo em uma bolha cultural que me faz superestimar o alcance do festival?


De toda forma, segui firme no meu propósito: aproveitar a FLIP de forma orgânica, sem participar da programação oficial, até para entender o evento e a cidade. Tive parceria para ir, o que foi ótimo. Afinal, primeiras vezes podem ser atrapalhadas.


E não foi diferente dessa vez.


Próximo à data de embarque foi que entendemos que, chegando pelo Rio de Janeiro, o transfer até Paraty seria um investimento maior de tempo — cerca de cinco horas de viagem — e de grana: os valores variavam entre R$ 120 pela passagem de ônibus e até R$ 2 mil por um carro particular.


Abrir mão de vontades


Eu e Felipe chegamos em Paraty na sexta-feira à noite, depois de pegar uma hora de engarrafamento para sair da cidade do Rio. A sorte foi que o motorista, Victor Hugo, é super cauteloso no trânsito e gente boa!


Logo na chegada começamos a entender que teríamos que nos acostumar com a ideia de abrir mão de muitas vontades.


Perdemos, por exemplo, o bate-papo com o pessoal do Foro de Teresina, podcast que a gente acompanha semanalmente. Fomos começar a entender a cidade e andar pelas difíceis pedras de Paraty à noite. Foi um misto de “que legal” com um “o que é que eu vim fazer aqui mesmo?”.


Nos dias seguintes, as pedras já faziam parte da rotina. Não acompanhar os eventos que eu tinha planejado assistir também.


Não estávamos dispostos a enfrentar horas de fila para assistir a uma mesa. Fazer isso dava a sensação de que perderíamos todo o resto do dia — e todas as possibilidades que chegam ao acaso pelas ruas de Paraty durante a FLIP.


Alguns exemplos?

Vi a jornalista Chris Fuscaldo, momentos depois de ela tietar o ator Thomas Aquino — entendi o final daquela cena que acompanhei só depois, nas redes sociais dela, e achei o máximo! Vi Marina Person indo para uma mesa, aparentemente com pressa. A atriz Karina Ramil, flanando pelas pedras difíceis de Paraty — sério, parecia que ela nem sentia as dificuldades para andar por ali. A cantora Maria Gadú, que vi por acaso dentro de uma das casas.


Troquei ideia com o cordelista Zé Salvador. Fiz foto com a escritora Janaína Ribeiro. Tietei a jornalista cultural Adriana Ferreira. Consegui autógrafo e foto com o jornalista Miguel de Almeida. Tive uma troca rápida de ideia — e como se nada fosse — com o músico Charles Gavin, baterista dos Titãs.

Público acompanhando a última mesa do Casadelas, na Flip 2026. Foto: Felipe Beux.
Público acompanhando a última mesa do Casadelas, na Flip 2026. Foto: Felipe Beux.

Assisti a um show do Chico Cesar da rua mesmo, porque a casa em que ele estava — assim como tantas outras — lotou rapidamente. E acompanhei uma mesa com Vera Iaconelli, Andrea Del Fuego e Bianca Santana, do lado de fora da Casadelas.


Tudo isso sem seguir à risca a programação que eu havia feito previamente. Assim, não demorou para eu entender que teria que construir uma experiência à parte para aproveitar o evento. Fiz isso e curti cada momento.


No entanto, a frustração batia no segundo seguinte a cada vez que eu era barrada para entrar nas mesas que queria assistir.


E talvez seja justamente aí que esteja uma das questões mais interessantes da minha experiência na FLIP: eu consegui criar uma outra programação para mim, mas isso não apagou a sensação de não ter conseguido acessar a programação que eu queria.


A cidade também escreve


Ao final do seu show na Casa Sesc, Chico Cesar lembrou uma fala da atriz Isabel Teixeira: a gente escreve o tempo todo. Com a luz, com o corpo, com as ações. Fiquei pensando nisso depois. Percebo que a FLIP também é escrita assim.


Não apenas nas mesas, nos livros, nos debates ou nas falas dos autores. Mas nas pessoas que circulam pelas ruas, nas conversas que acontecem por acaso, nas casas lotadas, nas filas que escolhemos não enfrentar, nos encontros inesperados e até nas pedras difíceis de Paraty.


Um dos cartões postais de Paraty, a Igreja Matriz. Foto: Felipe Beux/Flip2026.
Um dos cartões postais de Paraty, a Igreja Matriz. Foto: Felipe Beux/Flip2026.

Minha FLIP acabou sendo escrita dessa maneira, e isso foi muito bonito.


Mas também me fez pensar: se a cidade é parte tão importante da experiência, como garantir que o público consiga, de fato, participar dela?


Acessos e estruturas

É certo que esta foi a maior FLIP de todas as edições. Foram 40 mil visitantes que passaram pelo festival, quase o tamanho da população de Paraty, que tem aproximadamente 45 mil habitantes. 


Não à toa, a cidade sentiu o impacto. Faltou luz; acredito que tenha faltado água no hotel em que estávamos. E, claro, a organização precisou seguir as orientações de lotação de cada casa.


Para quem é a Flip
Programação principal da Flip 2026 com Eva Baltasar, Susy Freitas e Micheline Alves na mediação. Foto acervo pessoal

É muito interessante o fato de a programação principal ser transmitida no telão e a programação paralela ocupar o centro histórico da cidade. Mas é muito ruim que parte do público não consiga assistir justamente ao que se propôs a acompanhar.


Aqui está uma contradição que me parece importante: quanto maior a FLIP fica, mais difícil pode ser garantir que o público tenha acesso àquilo que o festival oferece.


Já pipocaram notícias e compartilhamentos pessoais sobre o evento contando que determinada mesa teve um público formado por profissionais importantes e/ou amigos dos autores e da produção. Isso acontece, não é novidade para ninguém, e é possível entender.


Mas a questão, para mim, não é necessariamente quem estava dentro das casas. Sim quem ficou do lado de fora.


Se existem telões transmitindo a programação principal e algumas atividades, por que não pensar em soluções semelhantes para mais mesas da programação paralela? Nesse ponto, volto para a pergunta lá do começo: para quem é a FLIP?


Cada vez mais me parece um evento pensado para profissionais debaterem sobre o setor, embora não seja isso que está descrito no site. Se o evento é também para o grande público, para admiradores dos nomes importantes que estiveram em Paraty, como fazer para que essas pessoas realmente acompanhem as mesas?


Sei que é um desafio. Mas talvez seja justamente esse o momento de pensar sobre ele.


Praticar a escuta ativa

Se bem conheço o funcionamento de festivais - e eu bem conheço, porque trabalho em alguns -, a organização encerrou o evento no dia 26 de julho com a produção do ano que vem a todo vapor.


Talvez o próximo passo seja justamente escutar o público que esteve ali. Inclusive (ou principalmente?) aquele que não conseguiu entrar.


Flip 2026. Foto: acervo pessoal.
Flip 2026. Foto: acervo pessoal.

Seria bacana pensar a produção literária junto com quem consome literatura. Ao mesmo tempo, instigar quem não curte tanto a olhar para a produção de livros no Brasil e no mundo, trazendo nomes importantes como já é feito. 


A FLIP é um evento bonito, que traz a possibilidade de consumir cultura em uma cidade imersa na história do Brasil e de uma natureza belíssima. Que legal isso! Mas, ao mesmo tempo, como isso pode ser excludente. 


A organização pensa, sim, em meio ambiente, compromisso social, acessibilidade e inclusão, governança e engajamento comunitário. Ainda assim, ficou para mim a sensação de que, como público, as pessoas nem sempre conseguem se sentir incluídas.


Sinto que existe uma diferença importante entre estar em uma cidade durante um festival e conseguir pertencer à experiência daquele festival.


Um soco no estômago

Eu, particularmente, tirei grandes lições da minha estada no evento. Foi na observação dos pequenos detalhes para além das mesas e dos bate-papos que, de novo, tive a certeza do meu privilégio.


Sempre que a gente enxerga isso é (pelo menos deveria ser) como um soco no estômago. Causa um embrulhamento desconfortável e uma vontade de que a gente possa repensar democratização, acessibilidade e diversidade.


Não adianta: a gente sempre pode aprender mais. No entanto, para isso, precisamos estar dispostos a escutar. 


Afinal, o que eu trouxe da FLIP?


Para quem é a Flip
Pelas ruas de Paraty durante a Flip 2026. Foto: acervo pessoal.

Para quem chegou até aqui: obrigada! 


Cada vez mais percebo o viés das coisas que gosto de compartilhar. Elas não são mainstream. Minha curadoria de conteúdo é uma interseção entre o que está em alta e o que é lado B. Acho que sou meio centrão nesse quesito e, nesse contexto, não acho que seja negativo.


Talvez seja justamente por isso que as mesas que consegui acompanhar tenham deixado tantas questões na minha cabeça.


Como jornalista cultural, profissional de comunicação e alguém que trabalha com cultura, saí da FLIP com alguns insights:


Sobre curadoria

O curador de conteúdo é, no fundo, um pesquisador. Por isso, cada um vai fazer uma curadoria diferente e trazer sugestões que serão consideradas por quem se identificar com elas.


O papel desse curador é um pouco o de cobrir a falta de cadernos de cultura em jornais, revistas e portais de notícias, que estão cada vez mais em falta.


O mundo das redes sociais pode ser um local interessante quando se tem qualificação para criar pequenas narrativas e entender quem pode indicar o quê.


Ter um posicionamento claro ajuda a guiar o conteúdo a ser pesquisado e compartilhado.


Sobre críticas - cada vez mais raras - nos veículos de comunicação

Os críticos não são apenas conhecedores de um determinado assunto. São também observadores de um comportamento e de uma tendência atual.


A crítica do século XXI é ou será escrita por não críticos.


Críticas feitas a trabalhos artísticos que diminuem a obra em detrimento das escolhas pessoais de cada artista não são críticas sérias.


Sobre publicações em geral (livros, principalmente)

A ideia de não publicar uma obra porque existe a chance de você não ser uma autora famosa, sem formação glamourizada, é rasa.


Publicar e escutar os retornos faz parte de todo o processo, ainda que este seja difícil.


O livro não é só de quem escreve, mas também de quem o lê.


Ouso dizer que essa foi uma das coisas mais bonitas que ouvi: a provocação para aprender com pessoas não alfabetizadas, porque elas ensinam muito sobre a leitura do mundo e sobre o desenho das palavras.


No fim das contas, entendi que trouxe da FLIP a certeza de que cultura também acontece no que não estava previsto.


Nas ruas, nos encontros, no que conseguimos acessar e no que não conseguimos. Naquilo que alguém escreve em um livro, mas também no que cada pessoa escreve com o corpo, com a luz, com as ações e com a própria experiência.


Flip 2026. Foto: Felipe Beux
Flip 2026. Foto: Felipe Beux

Para que essa experiência seja realmente coletiva, talvez a gente precise começar pelo mais simples e mais difícil: escutar quem está do lado de fora.


 
 
 

1 comentário


lemonjesuellen
há um dia

Que ponto de vista interessante, Lê! Quem está do lado de fora enxerga por outro ângulo, e essa percepção também precisa ser levada em conta na hora de montar um evento dessa envergadura!! Esse evento deixou muitos aprendizados... Obrigada por compartilhar!! (Su)

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