Se a economia criativa cresce, onde está o jornalismo cultural?

Estou me afundando cada vez mais no jornalismo cultural. É um caminho sem volta.
Posso trabalhar com outras áreas, como educação e sustentabilidade - como já trabalho -, mas a cultura tem meu coração e, cada vez mais, a minha atenção.
Esse aprofundamento vem de um interesse natural pelo assunto, mas acontece também em um momento curioso. A cultura e a economia criativa ganham relevância econômica e ampliam as discussões sobre seu papel no desenvolvimento das cidades e da sociedade. De acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), em 2023, a economia criativa representou 3,6% do PIB brasileiro. Naquele período, o setor reunia 7,4 milhões de trabalhadores, com expectativa de chegar a 8,4 milhões até 2030.
É um mercado que cresce. Mas, olhando para o jornalismo, tenho a impressão de que estamos perdendo espaços especializados justamente quando mais precisaríamos deles.
E quero colocar mais um personagem nessa história: a Inteligência Artificial.
Estamos convivendo cada vez mais com textos, imagens, vídeos e outros conteúdos produzidos ou mediados por IA. Em meio a essa profusão, tenho me perguntado se as experiências que dependem da presença não passam a adquirir outro valor.
Shows ao vivo, teatro, dança, festivais, museus, gastronomia. Há algo nessas experiências que ainda depende do corpo, do encontro, do espaço e daquele momento específico. Não assistimos exatamente ao mesmo espetáculo duas vezes. Não vivemos um show da mesma maneira que a pessoa ao nosso lado. Existe algo de único (e também de imperfeito) nessa experiência.
Mas é justamente aí que chego ao X da questão que quero trazer hoje: se estamos ávidos por experiências sensoriais reais, isso significa que precisamos aceitar como boa qualquer experiência que nos seja oferecida?
A crítica no jornalismo cultural como uma análise profunda
Quando podemos dizer que uma peça, um show, uma exposição, uma apresentação de dança não nos atravessou ou simplesmente não foi uma boa experiência, sem que isso seja entendido como um ataque ao artista que realizou aquele trabalho?
Tenho pensado bastante sobre a falta de uma crítica cultural séria e construtiva. Aquela que olha para uma obra, contextualiza, analisa, reconhece suas qualidades, aponta fragilidades e emite uma opinião inclusive quando ela não é positiva.
Não estou falando de destruir trabalhos ou artistas. A ideia é justamente o contrário: levar a produção cultural a sério o suficiente para que ela possa ser analisada, discutida e questionada.
É difícil para quem trabalha com crítica não se afetar pelas reações nas redes sociais, muitas vezes cruéis e pouco abertas à discordância. Mas, quando a crítica perde espaço ou se torna apenas elogio, perdemos todos.
Perde o artista, que deixa de ter uma análise externa sobre seu trabalho. Perde o público, que fica sem referências que ajudem a ampliar sua própria leitura sobre aquilo que viu ou que verá. E perde o profissional do jornalismo, que encontra cada vez menos espaço e condições para exercer legitimamente a crítica.
Refletir o fazer cultural e o jornalismo cultural
Essa reflexão, que não tem resposta pronta, foi reforçada recentemente durante o curso de Política e Produção Cultural, da Marina Coura, que estou fazendo nos próximos meses. Para pensar e fazer cultura precisamos de referências. E essas referências estão cada vez mais espalhadas entre redes sociais, newsletters, podcasts, canais independentes, criadores de conteúdo, veículos tradicionais e tantos outros formatos.
Essa transformação também atravessa diretamente o jornalismo cultural. Cadê os veículos especializados que conseguem se manter?
Olhando para Santa Catarina e, especialmente, para o meu cotidiano na assessoria de imprensa em Florianópolis, vejo uma redução significativa dos espaços dedicados exclusivamente à cultura dentro dos veículos de comunicação.
Há jornalistas fazendo trabalhos importantes e iniciativas independentes tentando ocupar essas lacunas, mas são poucos os espaços permanentes para cobertura, entrevista, reportagem, reflexão e crítica cultural.
E aqui aparece uma contradição que me inquieta: se a cultura cresce, onde está o jornalismo cultural?
Fazer jornalismo cultural independente e regional é essencial. Mas fazer isso sem condições financeiras para sustentar o trabalho pode transformar uma experiência apaixonante em uma experiência também frustrante.
Não basta defender a importância desses projetos. É preciso discutir como viabilizá-los.
Se queremos crítica, reportagem, cobertura presencial, entrevistas aprofundadas e memória sobre o que está sendo produzido culturalmente, é preciso que se invista nesse trabalho. Jornalistas precisam conseguir viver dele. Projetos independentes precisam encontrar modelos de sustentabilidade. Os próprios veículos de comunicação talvez precisem olhar com mais atenção para um setor que movimenta público, profissionais, recursos e interesse, e perceber que cultura também gera audiência e receita.
Talvez o desafio não seja apenas lamentar os espaços que perdemos, mas imaginar quais espaços ainda podemos construir.
Eu vou seguir fazendo meu jornalismo cultural regional. Seja divulgando cultura como assessora de imprensa, ou fazendo curadoria e entrevistas semanais. Mas também quero entender como viabilizar um espaço em que caibam coberturas de eventos culturais, artigos de opinião, agenda, entrevistas, crítica construtiva, grandes reportagens e tantos outros assuntos quanto a cultura pode nos proporcionar.
Se a produção cultural está se transformando, talvez o jornalismo que olha para ela também precise encontrar novas formas de existir e, sobretudo, de se sustentar.



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